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Quando o sonho do oprimido é tornar-se opressor

Esse pequeno texto é um convite à academia para que possamos inserir em nossas agendas de reflexão a pauta das dinâmicas internas de funcionamento dos programas de pós-graduação para além dos regimentos oficiais e a pauta da saúde mental dos pós-graduandos.  Há alguns eu ingressei no curso de doutorado de um programa de pós-graduação de uma universidade pública. Durante a entrevista, última etapa do processo seletivo, o/a orientador(a) pretendido(a) mostrou-se muito acolhedor(a) e compreensivo(a) em relação à minha situação de docente da rede pública, o que me fez acreditar que o ritmo de estudos e exigência em relação à pesquisa seriam adequados ao meu contexto. Entretanto, já na primeira reunião de orientação coletiva, percebi que me equivoquei: acuados, os demais orientandos tinham receio de falar sobre suas pesquisas e os trabalhos que estavam desenvolvendo. Pouco tempo depois, fui pressionado a aceitar uma rotina extenuante: além da elaboração do próprio projeto de pesquisa, e...

O currículo como tecnologia de guerra

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[...] E à noite nas tabas, se alguém duvidava  Do que ele contava,  Tornava prudente: “Meninos, eu vi!” Gonçalves Dias Fonte: Poder 360 Desde outubro de 2023 assistimos, silentes, a intensificação dos conflitos em Gaza e o consequente genocídio do povo palestino. Coincidentemente nesse interim – ou propositalmente – as escolas da rede pública estadual paulista de educação tornaram-se o púlpito do qual uma ideologia se amplificou apropriando-se do currículo da educação básica paulista para transformá-lo em tecnologia de guerra.  Uma organização internacional, que em seu portal oficial se autodefine como “apartidária” e, ao mesmo tempo, como uma organização educacional de Israel, firmou parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) para oferecer a professores e estudantes um ciclo intensivo de formação sobre antissemitismo. Foi distribuída aos estudantes toda a sorte de materiais possível, e a instituição também doou inúmeros livros à administração...

Uberização: mais um cadafalso para a educação

Em 26 de fevereiro de 2021 veio a público no canal do YouTube do jornal Folha de S. Paulo o primeiro vídeo da série intitulada “E Eu ?” que, conforme descrição no canal, objetiva apresentar o relato de “minorias pouco representadas na mídia” a respeito de “problemas na relação com a imprensa”. O vídeo em questão consiste em uma entrevista concedida por Paulo Lima – conhecido como Paulo Galo, líder do movimento dos Entregadores Antifascistas – na qual discute de maneira contundente, entre outros temas, as características e abrangência da precarização do trabalho no séc. XXI. Desde o primeiro dia em que o assisti decidi adotá-lo como material paradidático para as aulas de Filosofia, sobretudo para as ocasiões nas quais me proponho a tecer reflexões, com os estudantes, acerca do mundo do trabalho.  Durante a entrevista, Paulo Lima afirma que a uberização não é um problema exclusivo dos entregadores, mas um processo que alvejará outros setores. E argumenta que se a Revolução Industrial...

O silêncio nos conduzirá à bancarrota*

Desde que ingressei na rede pública estadual de educação como professor em regime de contratação temporária, há 12 anos, convivo com o temor de que em algum momento não haverá espaço para a Filosofia na educação básica. Portanto, logo no início da carreira, fui orientado por diretores de escola e colegas professores a cursar outra graduação para ter uma carta na manga no momento em que a ameaça se consolidar. Durante algum tempo, a estratégia do governo do estado de São Paulo foi a de fechar salas de aula no período noturno reduzindo, a um tempo, a quantidade de turmas e a jornada de trabalho dos professores. Essa medida foi incrementada com a expansão do Programa Ensino Integral (PEI) e, posteriormente, com as reformas curriculares dos últimos anos: arbitrariedades fantasiadas de legalidade.  A implementação da etapa Ensino Médio da Base Nacional Comum Curricular impôs aos estados a tarefa de reorganizar os currículos. Progressivamente, o Currículo Paulista substituiu o Currículo ...

Limbo racial

Há tempos tento decidir qual a melhor forma de partilhar as impressões em relação aos últimos eventos que ocorreram em minha vida. Apesar de considerar que ainda não encontrei a fórmula ideal, senti-me inspirado a escrever, e decidi produzir algo antes que a inspiração me abandonasse novamente e a proposta de reflexão se perdesse por completo. Em termos deleuzianos, a experiência com determinado acontecimento é e sempre será particular, pessoal e intransferível. Entretanto, alguns aspectos desse acontecimento são generalizáveis, o que justifica a nossa identificação com determinadas histórias: dada a singularidade de cada pessoa, somos incapazes de experimentar exatamente o que o outro experimenta, mas há algo na experiência alheia que se repete em outras experiências e em minhas experiências. Talvez seja esta a fórmula da empatia. Em 2020 atuava como professor em uma escola adepta às diretrizes do Programa Ensino Integral (PEI). Fui aprovado no processo seletivo do curso de mestrado d...

Manifesto Preto

O Coluna Preta surge para fazer frente a uma situação que se perpetua por anos em nossa sociedade: a invisibilidade dx negrx. No Brasil, sociedade predominantemente negra e afrodescendente, é de se estranhar que apenas 10% dos livros publicados entre 1965 e 2014 sejam de autores negros. Na educação, 22,2% da população branca tem 12 anos ou mais de estudo, enquanto na população negra a taxa é de 9,4 %. O índice de analfabetismo em 2016 entre os negros era de 9,9 %, mais que o dobro entre os brancos. Nos cursos superiores, em 2010, os negros representavam 29% dos estudantes de mestrado e doutorado, 0,03% do total de aproximadamente 200 mil doutores nas mais diversas áreas do conhecimento e somente 1,8 % entre todos os professores da Universidade de São Paulo (USP). Esse é o altíssimo preço que ainda pagamos pelo abandono da população negra após a Lei Áurea. Joaquim Nabuco dizia que os brasileiros estariam condenados ao atraso enquanto não resolvessem o problema da escravidão de forma sa...