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Mostrando postagens com o rótulo Reflexões

O 18 de brumário de Luís Bonaparte e o golpismo reacionário bolsonarista: uma análise da farsa histórica

  “A história se repete, primeiro como tragédia, depois, como farsa” (Marx, 2011, p. 25). Essa frase de Marx nos faz pensar como o golpismo bolsonarista, com seu lacaísmo e delírio nacionalista, tentou refazer o golpe de 64 para defender a “liberdade, costumes e família”. Isso não é novo, e tampouco surpreendente, mas nem por isso deixa de ser tão interessante.  Marx, nessa obra, analisa os processos de tentativa da França de se “colocar nos trilhos” politicamente, com a classe dominante fragmentada em vários interesses pequeno-burgueses, o proletariado organizando o princípio da social democracia, entre outros movimentos.  Após uma redemocratização louvável, o Brasil se introduziu de vez no mercado mundial, na lógica neoliberal e em todas as suas potencialidades e (muitas) falhas. Esse processo resultou em uma eleição de uma hegemonia social-democrata (PT - Lula I e II (2003-2010), Dilma 2011-2016) até sua eminente falha e o golpe elaborado pela direita no ano de 2016. C...

Quando o sonho do oprimido é tornar-se opressor

Esse pequeno texto é um convite à academia para que possamos inserir em nossas agendas de reflexão a pauta das dinâmicas internas de funcionamento dos programas de pós-graduação para além dos regimentos oficiais e a pauta da saúde mental dos pós-graduandos.  Há alguns eu ingressei no curso de doutorado de um programa de pós-graduação de uma universidade pública. Durante a entrevista, última etapa do processo seletivo, o/a orientador(a) pretendido(a) mostrou-se muito acolhedor(a) e compreensivo(a) em relação à minha situação de docente da rede pública, o que me fez acreditar que o ritmo de estudos e exigência em relação à pesquisa seriam adequados ao meu contexto. Entretanto, já na primeira reunião de orientação coletiva, percebi que me equivoquei: acuados, os demais orientandos tinham receio de falar sobre suas pesquisas e os trabalhos que estavam desenvolvendo. Pouco tempo depois, fui pressionado a aceitar uma rotina extenuante: além da elaboração do próprio projeto de pesquisa, e...

O currículo como tecnologia de guerra

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[...] E à noite nas tabas, se alguém duvidava  Do que ele contava,  Tornava prudente: “Meninos, eu vi!” Gonçalves Dias Fonte: Poder 360 Desde outubro de 2023 assistimos, silentes, a intensificação dos conflitos em Gaza e o consequente genocídio do povo palestino. Coincidentemente nesse interim – ou propositalmente – as escolas da rede pública estadual paulista de educação tornaram-se o púlpito do qual uma ideologia se amplificou apropriando-se do currículo da educação básica paulista para transformá-lo em tecnologia de guerra.  Uma organização internacional, que em seu portal oficial se autodefine como “apartidária” e, ao mesmo tempo, como uma organização educacional de Israel, firmou parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) para oferecer a professores e estudantes um ciclo intensivo de formação sobre antissemitismo. Foi distribuída aos estudantes toda a sorte de materiais possível, e a instituição também doou inúmeros livros à administração...

Uberização: mais um cadafalso para a educação

Em 26 de fevereiro de 2021 veio a público no canal do YouTube do jornal Folha de S. Paulo o primeiro vídeo da série intitulada “E Eu ?” que, conforme descrição no canal, objetiva apresentar o relato de “minorias pouco representadas na mídia” a respeito de “problemas na relação com a imprensa”. O vídeo em questão consiste em uma entrevista concedida por Paulo Lima – conhecido como Paulo Galo, líder do movimento dos Entregadores Antifascistas – na qual discute de maneira contundente, entre outros temas, as características e abrangência da precarização do trabalho no séc. XXI. Desde o primeiro dia em que o assisti decidi adotá-lo como material paradidático para as aulas de Filosofia, sobretudo para as ocasiões nas quais me proponho a tecer reflexões, com os estudantes, acerca do mundo do trabalho.  Durante a entrevista, Paulo Lima afirma que a uberização não é um problema exclusivo dos entregadores, mas um processo que alvejará outros setores. E argumenta que se a Revolução Industrial...

O silêncio nos conduzirá à bancarrota*

Desde que ingressei na rede pública estadual de educação como professor em regime de contratação temporária, há 12 anos, convivo com o temor de que em algum momento não haverá espaço para a Filosofia na educação básica. Portanto, logo no início da carreira, fui orientado por diretores de escola e colegas professores a cursar outra graduação para ter uma carta na manga no momento em que a ameaça se consolidar. Durante algum tempo, a estratégia do governo do estado de São Paulo foi a de fechar salas de aula no período noturno reduzindo, a um tempo, a quantidade de turmas e a jornada de trabalho dos professores. Essa medida foi incrementada com a expansão do Programa Ensino Integral (PEI) e, posteriormente, com as reformas curriculares dos últimos anos: arbitrariedades fantasiadas de legalidade.  A implementação da etapa Ensino Médio da Base Nacional Comum Curricular impôs aos estados a tarefa de reorganizar os currículos. Progressivamente, o Currículo Paulista substituiu o Currículo ...

Limbo racial

Há tempos tento decidir qual a melhor forma de partilhar as impressões em relação aos últimos eventos que ocorreram em minha vida. Apesar de considerar que ainda não encontrei a fórmula ideal, senti-me inspirado a escrever, e decidi produzir algo antes que a inspiração me abandonasse novamente e a proposta de reflexão se perdesse por completo. Em termos deleuzianos, a experiência com determinado acontecimento é e sempre será particular, pessoal e intransferível. Entretanto, alguns aspectos desse acontecimento são generalizáveis, o que justifica a nossa identificação com determinadas histórias: dada a singularidade de cada pessoa, somos incapazes de experimentar exatamente o que o outro experimenta, mas há algo na experiência alheia que se repete em outras experiências e em minhas experiências. Talvez seja esta a fórmula da empatia. Em 2020 atuava como professor em uma escola adepta às diretrizes do Programa Ensino Integral (PEI). Fui aprovado no processo seletivo do curso de mestrado d...