Quando o sonho do oprimido é tornar-se opressor

Esse pequeno texto é um convite à academia para que possamos inserir em nossas agendas de reflexão a pauta das dinâmicas internas de funcionamento dos programas de pós-graduação para além dos regimentos oficiais e a pauta da saúde mental dos pós-graduandos. 

Há alguns eu ingressei no curso de doutorado de um programa de pós-graduação de uma universidade pública. Durante a entrevista, última etapa do processo seletivo, o/a orientador(a) pretendido(a) mostrou-se muito acolhedor(a) e compreensivo(a) em relação à minha situação de docente da rede pública, o que me fez acreditar que o ritmo de estudos e exigência em relação à pesquisa seriam adequados ao meu contexto. Entretanto, já na primeira reunião de orientação coletiva, percebi que me equivoquei: acuados, os demais orientandos tinham receio de falar sobre suas pesquisas e os trabalhos que estavam desenvolvendo. Pouco tempo depois, fui pressionado a aceitar uma rotina extenuante: além da elaboração do próprio projeto de pesquisa, eu deveria cumprir todos os créditos em 12 meses, o que envolvia inúmeras atividades, como cursar disciplinas, produzir artigos para publicar em revistas com fator de impacto, participar de eventos acadêmicos, colaborar na elaboração e aplicação de planos de aula de disciplinas da graduação. O acolhimento e compreensão iniciais desvaneceram-se, e eu já não podia tolerar ser tradado com grosseria e rispidez diante dos demais orientandos. Eles suportavam as humilhações calados, mas eu decidi que o título não valia a minha dignidade: o preço era alto demais e eu não estava disposto a pagar. 

Depois de decidir pelo desligamento do programa, comecei a avaliar as trilhas que percorri no curso de mestrado do mesmo programa e instituição. A experiência não havia sido tão insalubre, mas deixou suas marcas negativas: falta de retorno em relação às atividades entregues, o que gerou insegurança em relação ao aproveitamento do curso e à sua conclusão de maneira satisfatória; falta de retorno em relação ao andamento da minha pesquisa, o que tornou o processo de qualificação extremamente ansiogênico; apropriação indevida de trabalhos acadêmicos produzidos por mim, o que gerou revolta e indignação, entre outras situações. 

Essas experiências foram vividas antes da divulgação, na mídia, dos casos de abuso sexual e demais abusos cometidos por intelectuais brasileiros e estrangeiros, pesquisadores que se tornaram referência em suas áreas de estudo e atuação, e que se enquadram em um campo que poderíamos denominar de “progressista”. Comparando as experiências, comecei a me perguntar se existiria um padrão. Talvez o sonho do oprimido seja tornar-se opressor. Não pretendo explicar um fenômeno extremamente complexo a partir de casos particulares, ou justificar os atos criminosos cometidos por essas pessoas. Penso apenas que essas situações evidenciam o fato de que precisamos refletir sobre as sequelas da pós-graduação. 

Álvaro de Souza Maiotti

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